Segurança Rodoviária na Gravidez: Como Usar o Cinto e Preparar o Bebé para a Estrada

Em cada viagem, mãe e bebé partilham o mesmo habitáculo, o mesmo cinto de segurança e as mesmas leis da física. Ainda assim, a forma correta de utilizar o cinto na gravidez continua muito pouco discutida

Recomendações da NTF e continuidade da proteção pós-parto

Estar grávida é, muitas vezes, ter a agenda marcada por consultas, análises e ecografias. Cuida-se da tensão arterial, da alimentação, da saúde física e emocional. Mas há um “check-up” que raramente entra na rotina pré-natal: de que forma a grávida se desloca de automóvel, ao volante ou como passageira? A que deve atentar quando se senta dentro de um automóvel?

Em cada viagem, mãe e bebé partilham o mesmo habitáculo, o mesmo cinto de segurança e as mesmas leis da física. Ainda assim, a forma correta de utilizar o cinto na gravidez continua muito pouco discutida, o que abre espaço a mitos, medos e práticas que podem aumentar o risco, em vez de o reduzir.

Condução segura na gravidez, transporte seguro do bebé: dois amores, um mesmo colo em movimento.

Recentemente, a Associação Nacional Sueca de Segurança Rodoviária (NTF) apresentou uma recomendação nacional para o uso do cinto de segurança na gravidez, desenvolvida em parceria com centros de investigação, seguradoras e indústria automóvel. No D’Barriga já traduzimos e comentámos estas orientações, disponíveis em detalhe no nosso site e Substack.

A partir deste documento, olhamos para três dimensões essenciais: como colocar o cinto, como conduzir na gravidez e como garantir continuidade da proteção quando o bebé nasce.


1. Como usar o cinto de segurança na gravidez de forma correta

A mensagem central é clara: o cinto de segurança continua a ser o principal sistema de proteção do veículo, também na gravidez. Proteger o bebé começa por proteger o corpo da pessoa grávida.

Boas práticas de utilização do cinto na gravidez incluem:

  • Usar sempre o cinto de segurança, mesmo que em percursos curtos.
  • Abrir ou retirar casacos volumosos, para que o cinto assente diretamente sobre o corpo.
  • Colocar a faixa inferior por baixo da barriga, apoiada firmemente nas ancas e parte superior das coxas, evitando que passe sobre o abdómen.
  • Posicionar a faixa diagonal a meio do ombro, entre as mamas, descendo pela lateral do tronco.
  • Manter o cinto bem ajustado, sem folgas, adaptando a altura do ponto de ancoragem e a posição do banco, se necessário.
  • Manter o airbag ativo, uma vez que foi concebido para funcionar em conjunto com o cinto.

Para quem desejar aprofundar o passo a passo, a recomendação da NTF apresenta instruções visuais muito claras.

Consultar a tradução integral do guia completo da NTF


2. Dispositivos “para grávidas” que alteram o curso do cinto: apoio ou fonte de risco?

Nos últimos anos surgiram diversos dispositivos que prometem “afastar o cinto da barriga” ou tornar a condução mais confortável na gravidez. A recomendação sueca é prudente: evitar produtos adicionais que modifiquem o percurso do cinto.

Os principais motivos são:

  • Estes dispositivos não integram o sistema de segurança original do veículo.
  • Na maioria dos casos, não são testados em colisão em conjunto com cintos e airbags.
  • Ao alterar a posição do cinto, podem desviar as forças de impacto para zonas mais vulneráveis, aumentando os riscos de lesão.

Se existir desconforto, a prioridade deve ser ajustar banco, encosto, pausas e postura, e não “inventar” um novo percurso para o cinto que o veículo não foi projetado para suportar.


3. Conduzir na gravidez: quando, como e até quando?

A recomendação da NTF relembra que a pessoa grávida pode continuar a conduzir enquanto conseguir controlar o veículo em segurança: alcançar pedais, manter boa visibilidade e concentração. Em contexto de gravidez, a forma de conduzir passa a ter um peso adicional.

Algumas orientações úteis:

  • Privilegiar uma condução calma e previsível, com velocidades moderadas e manobras suaves.
  • Planear as viagens, evitando períodos de maior fadiga, náuseas intensas ou dor.
  • Fazer pausas regulares em deslocações longas, para alongar, hidratar e recentrar a atenção.
  • Ajustar o posto de condução, garantindo distância adequada ao volante e correta posição do cinto.
  • Em fases mais avançadas da gravidez, ou perante sintomas que comprometem a capacidade de reagir (tonturas, visão turva, contrações frequentes), ponderar passar o volante a outra pessoa.

Não se trata de dramatizar a condução na gravidez, mas de a integrar numa lógica de prevenção: conduzir com calma é também uma forma de cuidar de quem se traz ao colo, do lado de dentro.


4. Do cinto, in útero, à cadeira auto: a continuidade da proteção

Com o parto, a segurança rodoviária não termina, transforma-se. O cinto que protegeu a gravidez dá lugar à primeira cadeira auto, ao ovo e ao sistema de passeio.

Decisões tomadas com antecedência ajudam a reduzir ansiedade numa fase de grande adaptação:

  • Escolher atempadamente a primeira cadeira auto, compatível com o veículo e adequada ao tamanho do bebé.
  • Pensar no sistema de passeio em função da realidade familiar: escadas, elevadores, tipo de piso, frequência de uso do carro.
  • Planear o primeiro trajeto da maternidade para casa, testando previamente a instalação da cadeira auto.

No D’Barriga costumamos dizer que boas escolhas iniciais são quase o código-postal para um pós-parto mais tranquilo: quando a cadeira auto está bem escolhida e bem instalada, e o carrinho faz sentido para a rotina da família, há menos improvisos na estrada e mais espaço para aquilo que importa, conhecer o bebé.


Entre análises, ecografias e consultas, vale a pena reservar alguns minutos para rever como se viaja de carro. São gestos simples, quase invisíveis, mas que, no dia em que algo corre menos bem, podem fazer a diferença entre um grande susto e a possibilidade de continuar esse abraço a dois, agora com o bebé do lado de fora da barriga, no mesmo colo em movimento.

Joana Freitas
Especialista em Segurança Rodoviária Infantil e Puericultura, D’Barriga · LinkedIn

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