Entre celebrações e cansaço, muitas mulheres sentem que “seguram tudo” nas festas. Conhece 7 desafios comuns e formas práticas de aliviar a pressão.
As festas de final de ano são frequentemente associadas a descanso, família e celebração. Mas, para muitas mulheres --- sobretudo mães de crianças pequenas --- este período é vivido com ambivalência. Há momentos bons, sim, mas também há cansaço, irritação, tensão e a sensação persistente de estar a "segurar tudo".
As rotinas mudam, os encontros familiares prolongam-se, as expectativas acumulam-se. Aquilo que deveria ser pausa transforma-se, não raras vezes, em mais uma prova de resistência emocional.
A partir da escuta clínica, reunimos aqui sete desafios muito comuns vividos pelas mulheres nesta altura do ano, acompanhados de algumas estratégias possíveis. Não como soluções mágicas, mas como pontos de apoio para atravessar as festas com mais consciência, menos culpa e mais cuidado consigo.
1. Sobrecarga mental e dificuldade em delegar
Mesmo quando existe apoio, muitas mulheres sentem que tudo acaba por passar por elas: o planeamento das festas, a organização da casa, o cuidado com as crianças, a gestão do ambiente emocional.
Delegar nem sempre alivia. Para algumas, delegar é arriscar críticas. Para outras, é lidar com a frustração de ver as coisas feitas de outra forma. Para muitas, é sentir que perde o controlo.
Algumas ideias que podem ajudar: - Listar as tarefas e perguntar-se, honestamente, o que é responsabilidade e o que é controlo\
- Delegar tarefas concretas com expectativas realistas\
- Lembrar-se de que "suficientemente bom" também é bom
2. Críticas vindas de pessoas emocionalmente importantes
Nas festas surgem comentários sobre escolhas parentais, trabalho, corpo ou rotina. Muitas vezes vêm de pessoas próximas: pais, mães, sogros, sogras, irmãos.
Por virem de quem vêm, essas críticas não passam ao lado. Mesmo quando não são pedidas, mesmo quando vêm disfarçadas de conselho, podem magoar.
Algumas estratégias possíveis: - Preparar respostas curtas e neutras, que não alimentem a conversa\
- Evitar explicações longas ou defensivas --- quem critica raramente está disponível para ouvir\
- Lembrar-se de que discordar não é desrespeitar e de que o conflito também faz parte das relações próximas
3. Diferenças sobre práticas educativas e escolhas alimentares
As festas tornam mais visíveis diferenças de valores, sobretudo em relação à educação das crianças, aos limites e à alimentação.
Muitas mulheres sentem-se chamadas a justificar escolhas que foram pensadas, estudadas e sentidas --- como se fossem caprichos.
Algumas ideias que podem ajudar: - Definir previamente o que é negociável (e pode ser flexibilizado) e o que não é, alinhando com o/a parceiro/a\
- Evitar debates educativos em contextos emocionalmente carregados\
- Manter coerência e consistência, mesmo sem convencer os outros
4. Disputa pelo tempo e pela atenção das crianças
Não é raro que as crianças se tornem o centro de disputas silenciosas entre adultos: quem passa mais tempo, quem recebe mais atenção, quem "aproveita melhor", quem deu o melhor presente.
A mãe acaba, muitas vezes, no papel de mediadora --- regulando acessos, expectativas e frustrações que não são suas.
Alguns pontos de apoio: - Priorizar o bem-estar da criança\
- Organizar tempos e combinados de forma clara\
- Autorizar-se a dizer "não" sem culpa excessiva\
- Lembrar-se de que comparações dizem mais sobre quem as faz do que sobre a criança
5. A mãe como gestora emocional de conflitos familiares não resolvidos
Conflitos antigos, tensões nunca nomeadas ou relações mal resolvidas tendem a reaparecer nas festas. E, frequentemente, recai sobre a mãe a tarefa de manter a harmonia.
Ela traduz silêncios, evita confrontos, suaviza tensões e absorve desconfortos que não lhe pertencem.
Algumas ideias que podem ajudar: - Reconhecer que nem todo conflito precisa de mediação\
- Recusar, sempre que possível, o papel de amortecedor emocional\
- Criar pequenos momentos de retirada e pausa ao longo do dia\
- Lembrar-se de que é possível amar alguém e, ainda assim, não gostar de tudo nessa pessoa\
- Ter presente que a forma como outros adultos se relacionam entre si não é responsabilidade sua
6. Tensões políticas à mesa
Com as eleições presidenciais em janeiro, conversas políticas podem surgir com mais intensidade, trazendo polarização e desconforto.
Muitas mulheres sentem-se responsáveis por manter a paz --- mesmo quando isso significa calar-se.
Algumas estratégias possíveis: - Escolher conscientemente quando falar e quando não falar\
- Manter um olhar de curiosidade (nem sempre a outra pessoa quer dialogar; muitas vezes quer convencer)\
- Usar saídas simples e claras de conversas difíceis\
- Proteger-se da sobrecarga emocional, criando pequenas "rotas de fuga"
7. Expectativas e pressões externas sobre decisões da maternidade
Ter mais filhos ou não. Amamentar ou não. Colocar na escola ou não. Trabalhar mais ou menos.
Durante as festas, decisões íntimas tornam-se facilmente assunto público, como se estivessem abertas à avaliação coletiva.
Algumas ideias que podem ajudar: - Reduzir explicações sobre escolhas pessoais\
- Aceitar que nenhuma decisão será consensual\
- Valorizar a coerência interna mais do que a aprovação externa
Para finalizar
As festas de final de ano não são neutras. Elas reativam dinâmicas familiares antigas e colocam muitas mulheres no lugar de gestoras emocionais do sistema familiar.
Reconhecer esse lugar --- e, sobretudo, os seus limites --- pode ser um primeiro passo para atravessar este período com mais presença, menos culpa e mais cuidado consigo.
Cuidar da saúde emocional também é cuidar da família. Quando cuidamos de nós, estamos também a cuidar dos nossos.