Flora vaginal: o que é e como cuidar deste equilíbrio
Flora vaginal: o que é e como cuidar deste equilíbrio

Flora vaginal: o que é e como cuidar deste equilíbrio

A flora vaginal protege a saúde da vagina e muda ao longo da vida. Descobre o que pode desequilibrá-la, que sintomas valorizar e quando deves ser observada pelo teu médico.

29 de maio de 2026 4 min de leitura Mariana Torres

A flora vaginal, também chamada microbiota vaginal, é o conjunto de microrganismos que vivem naturalmente na vagina. Embora associemos muitas vezes a palavra “bactérias” a infeção, muitas destas bactérias têm uma função protetora e fazem parte do equilíbrio normal da saúde vaginal.

Na maioria das mulheres em idade reprodutiva, a flora vaginal é dominada por lactobacilos. Estas bactérias ajudam a manter o pH vaginal mais ácido, criando um ambiente menos favorável ao crescimento excessivo de outros microrganismos. Esta é uma das formas de proteção natural da vagina e ajuda a explicar porque é que nem todos os corrimentos, cheiros ou variações ao longo do ciclo significam doença.

Ainda existe a ideia de que a vagina precisa de ser “purificada”, perfumada ou lavada por dentro, mas isto não é verdade. A vagina tem mecanismos próprios de limpeza e defesa. A vulva, que corresponde à parte externa, deve ser lavada com água e produtos suaves; a vagina, por dentro, não precisa de ser lavada, duches, perfumes ou produtos agressivos.

A flora vaginal muda ao longo da vida

A flora vaginal não é igual em todas as fases da vida. Antes da puberdade, o ambiente vaginal é diferente, em grande parte porque os níveis de estrogénios são baixos. Com a puberdade e o início dos ciclos menstruais, os estrogénios modificam a mucosa vaginal e favorecem a presença de lactobacilos.

Durante a idade fértil, este equilíbrio pode variar ao longo do ciclo menstrual. A menstruação, as relações sexuais, a contraceção hormonal, o uso de antibióticos e algumas alterações do dia a dia podem influenciar temporariamente a microbiota vaginal, sem que isso signifique necessariamente uma infeção.

Na gravidez, as alterações hormonais podem tornar o corrimento mais abundante e modificar a sensibilidade da vulva e da vagina. No pós-parto e durante a amamentação, a descida relativa dos estrogénios pode associar-se a secura vaginal, desconforto ou dor nas relações sexuais. Na menopausa, esta redução hormonal torna-se mais marcada e pode contribuir para secura, ardor, fragilidade da mucosa vaginal e maior tendência para sintomas vaginais ou urinários.

Estas mudanças não significam, por si só, doença. Significam que o corpo muda e que os cuidados podem precisar de ser ajustados a cada fase. Existem tratamentos adequados a cada uma destas queixas.

O que pode desequilibrar a flora vaginal?

A flora vaginal é dinâmica e pode ser influenciada por vários fatores, como antibióticos, duches vaginais, produtos perfumados, relações sexuais, novo parceiro sexual, menstruação, gravidez, menopausa, diabetes mal controlada ou alterações da imunidade.

Um dos desequilíbrios mais frequentes é a vaginose bacteriana, que acontece quando há redução dos lactobacilos e crescimento excessivo de outras bactérias. Pode causar corrimento com odor mais intenso, muitas vezes descrito como cheiro a peixe, sobretudo depois das relações sexuais ou da menstruação, mas também pode não dar sintomas.

A candidíase vaginal é uma condição diferente e está mais frequentemente associada a comichão, ardor, vermelhidão e corrimento espesso. Mas nem toda a comichão é candidíase. Por isso, tratar com antifúngicos repetidamente sem observação médica não é boa ideia.

E o mais importante: ter corrimento vaginal não significa automaticamente ter uma infeção. O corrimento ou muco pode variar ao longo do ciclo, aumentar perto da ovulação, mudar antes da menstruação ou ser mais abundante na gravidez. O que não pode ser ignorado é uma alteração persistente do padrão habitual, sobretudo se vier acompanhada de mau cheiro, comichão, ardor, dor, sangue fora da menstruação ou desconforto nas relações sexuais.

Como cuidar da saúde vaginal e vulvar

Cuidar da flora vaginal passa, muitas vezes, por fazer menos e fazer melhor. A vulva deve ser lavada com água ou com um produto suave, sem perfume, evitando duches vaginais, desodorizantes, perfumes, produtos “refrescantes” e tratamentos repetidos sem diagnóstico.

Também pode ajudar trocar a roupa se estiver molhada ou muito suada assim que possível, preferir roupa interior confortável e respirável, não usar roupa interior durante a noite e usar preservativo quando há risco de infeções sexualmente transmissíveis.

Respeitar a flora vaginal é respeitar um sistema vivo e sensível. Nem tudo precisa de intervenção, mas quando alguma coisa muda e preocupa, vale a pena ouvires o teu corpo e seres observada pelo teu médico.

Referências bibliográficas

  1. American College of Obstetricians and Gynecologists. Vulvovaginal Health. ACOG Patient FAQ. Disponível em: https://www.acog.org/womens-health/faqs/vulvovaginal-health

  2. Centers for Disease Control and Prevention. About Bacterial Vaginosis (BV). CDC. Disponível em: https://www.cdc.gov/bacterial-vaginosis/about/index.html

  3. World Health Organization. Bacterial vaginosis. WHO Fact Sheet. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/bacterial-vaginosis

  4. Giordano R, Francavilla F, Mosca A, et al. The Vaginal Microbiome: A Long Urogenital Colonization Throughout Woman Life. Frontiers in Cellular and Infection Microbiology. 2021;11:686167. doi:10.3389/fcimb.2021.686167.

Mariana Torres
Mariana Torres

Médica pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, tendo concluído a especialidade de Ginecologia e Obstetrícia no Hospital Garcia de Orta em 2018. Realizou o curso de Aconselhamento em Aleitamento Materno (OMS/UNICEF) e o curso de Doula pela Nurturing Birth. Criadora da página @marianatorres_ob e autora do livro “O que é que se passa aqui dentro?”, um guia da pré-concepção ao pós-parto. Fundadora da Clínica Matriz.

Publicado em 29 de maio de 2026

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