A Síndrome do Ovário Poliquístico tem um novo nome. O que é que isso muda?
Durante muitos anos, a Síndrome do Ovário Poliquístico foi conhecida pela sigla SOP — ou PCOS, em inglês. Agora, um consenso internacional publicado na revista científica The Lancet propõe uma nova designação: Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome, ou PMOS.
Em português, poderemos aproximar o termo para síndrome ovárica metabólica poliendócrina, embora a sigla internacional PMOS seja a mais provável de ser usada na literatura científica.
Mas esta mudança não é apenas uma questão de nome.
Porque é que o nome “ovário poliquístico” pode ser confuso?
A antiga designação, “ovário poliquístico”, sempre trouxe alguma confusão. O nome dava a ideia de que esta era uma doença definida por quistos nos ovários.
Na realidade, aquilo que muitas vezes se vê na ecografia não são quistos patológicos, mas muitos pequenos folículos. Além disso, nem todas as pessoas com esta síndrome têm esse aspeto ecográfico, e a condição vai muito além dos ovários.
Uma condição hormonal e metabólica
A PMOS é uma condição hormonal e metabólica complexa.
Pode envolver:
- alterações da ovulação;
- ciclos menstruais irregulares;
- excesso de androgénios;
- acne;
- aumento de pelos;
- queda de cabelo;
- resistência à insulina;
- maior risco metabólico;
- impacto na fertilidade;
- impacto na saúde emocional.
Ou seja, é uma condição do corpo inteiro — não apenas uma questão ginecológica.
O que significa o novo nome?
O novo nome procura refletir melhor esta complexidade.
Poliendócrina reconhece que estão envolvidos vários eixos hormonais.
Metabólica valoriza a relação com resistência à insulina, peso, risco de diabetes e saúde cardiovascular.
Ovárica mantém a ligação à função dos ovários, que continua a ser importante, mas sem reduzir tudo à ideia de “quistos”.
E quem já tem diagnóstico de SOP?
Para quem já tem diagnóstico de SOP, esta mudança não significa que “tem outra doença” nem que o diagnóstico anterior deixou de fazer sentido.
Significa que a ciência está a tentar nomear melhor uma condição que sempre foi mais ampla do que o seu nome fazia parecer.
Na prática clínica, o mais importante continua a ser uma avaliação individualizada e o diagnóstico não deve depender apenas da ecografia.
De acordo com as guideline internacionais de 2023, em adultos, o diagnóstico baseia-se habitualmente na presença de dois de três critérios:
- sinais clínicos ou bioquímicos de excesso de androgénios;
- disfunção ovulatória;
- ovários com morfologia poliquística na ecografia;
sempre depois de excluídas outras causas.
Nas adolescentes, a abordagem é diferente e deve ser particularmente cuidadosa.
Porque é que esta mudança é importante?
Esta mudança de nome pode ser uma oportunidade importante: para reduzir o estigma, diminuir atrasos no diagnóstico, melhorar a comunicação com as utentes e lembrar que a PMOS/SOP deve ser acompanhada de forma multidisciplinar.
Não se trata apenas de regular ciclos, camuflar os sintomas com pílula ou de pensar em fertilidade.
Trata-se também de avaliar o metabolismo, a pele, a saúde emocional, o risco cardiovascular, sono, imagem corporal, qualidade de vida e planos reprodutivos.
Avanço ou retrocesso?
Não tenho dúvidas que esta mudança é um passo positivo. Nomear melhor uma condição ajuda a compreendê-la melhor. E compreender melhor é, muitas vezes, o primeiro passo para cuidar melhor.
Se tens ciclos irregulares, acne persistente, aumento de pelos, dificuldade em engravidar, queda de cabelo ou dúvidas sobre um diagnóstico prévio de SOP, vale a pena procurar avaliação médica.
Fonte: Teede HJ, Bahri Khomami M, Morman R, et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. The Lancet. Publicado online a 12 de maio de 2026. doi:10.1016/S0140-6736(26)00717-8."
