Queres deixar de tomar a pílula? Descobre o que acontece ao corpo, à fertilidade e ao ciclo, os possíveis benefícios e quando procurar ajuda.
A decisão de deixar de tomar a pílula pode surgir por muitas razões: porque queres experimentar um método sem hormonas, porque estás a pensar engravidar, porque sentes que já não é o método certo para ti ou simplesmente porque queres perceber melhor o teu ciclo. Não há uma resposta única para todas as mulheres, mas há algumas coisas úteis a saber antes de fazeres a mudança.
A pílula não “acumula” no organismo nem deixa a fertilidade estragada. Depois de a interromperes, o corpo retoma progressivamente o seu funcionamento hormonal habitual. Esse regresso pode ser rápido, mas a experiência varia de pessoa para pessoa.
O que acontece ao corpo quando deixas a pílula?
A pílula combinada contém estrogénio e progestativo e, entre outros efeitos, impede habitualmente a ovulação. A hemorragia que surge durante a pausa ou nos dias de comprimidos placebo é uma hemorragia de privação: não é exatamente uma menstruação espontânea de um ciclo ovulatório natural.
Quando deixas a pílula, o organismo volta a regular o ciclo sem esse controlo hormonal externo. Podes ovular logo no primeiro ciclo, ou demorar algum tempo a retomar um padrão previsível. A primeira hemorragia pode aparecer algumas semanas depois, mas a data não é igual para todas.
Se antes da pílula tinhas ciclos irregulares, dores menstruais, perdas abundantes ou acne, é possível que essas características voltem a aparecer. Isto não significa que a pílula tenha causado o problema: muitas vezes, estava apenas a controlar sintomas de uma condição que já existia.
A fertilidade regressa depois de parar a pílula?
Sim. A fertilidade pode regressar rapidamente depois de interromperes a pílula e podes ovular antes da primeira menstruação espontânea. Por isso, se não desejas engravidar, precisas de iniciar outro método contracetivo imediatamente — por exemplo, preservativo — em vez de esperares pelo primeiro período.
Se queres engravidar, não é obrigatório fazer uma pausa de vários meses. Podes começar a tentar depois de parares. Não precisas de esperar por uma “limpeza” do organismo: as hormonas da pílula não ficam armazenadas no corpo durante meses.
Ainda assim, engravidar pode não acontecer logo. A probabilidade de gravidez depende de vários fatores, incluindo a idade, a frequência das relações sexuais, a ovulação e a fertilidade de ambos os elementos do casal. O regresso do ciclo e o tempo até à gravidez não são a mesma coisa.
Quanto tempo demora o ciclo a regularizar-se?
Algumas mulheres retomam rapidamente ciclos semelhantes aos que tinham antes da pílula. Noutras, os primeiros meses são menos previsíveis: o intervalo entre hemorragias pode variar, pode haver spotting ou podem surgir alterações no fluxo e nas dores.
Não existe um prazo universal que determine quanto tempo é “normal” o corpo demorar. O mais importante é observar a evolução e ter em conta como eram os teus ciclos antes da contraceção.
Se não tiveres qualquer hemorragia durante três meses depois de parar a pílula, faz um teste de gravidez e marca uma avaliação médica, mesmo que tenhas usado preservativo. A ausência de menstruação pode ter outras causas, como alterações da tiroide, variações importantes de peso, exercício intenso, stress ou síndrome do ovário poliquístico.
Possíveis mudanças que podes notar
Depois de parares a pílula, algumas mulheres notam:
- alterações no intervalo entre ciclos;
- fluxo mais abundante ou mais reduzido;
- cólicas ou sintomas pré-menstruais que não sentiam com a pílula;
- reaparecimento de acne ou de maior oleosidade da pele;
- mudanças no muco cervical e na perceção da ovulação;
- alterações do humor ou da libido — que podem ter várias causas e não devem ser automaticamente atribuídas à suspensão da pílula.
Estas mudanças não significam necessariamente que algo esteja errado. Mas sintomas novos, intensos ou persistentes merecem ser avaliados, sobretudo se interferirem com a tua qualidade de vida.
Como fazer a transição com mais segurança
Antes de parares, pensa no motivo da mudança e no que queres obter. Se não desejas engravidar, escolhe previamente o método que vais usar a seguir. O preservativo é também o único método contracetivo que protege contra infeções sexualmente transmissíveis.
Se estás a planear uma gravidez, começa a tomar ácido fólico na dose recomendada pelo teu médico, revê a medicação habitual e confirma se as vacinas e as doenças crónicas estão devidamente acompanhadas. Uma consulta de planeamento familiar ou pré-concecional pode ser útil, especialmente se tens ciclos muito irregulares, endometriose, síndrome do ovário poliquístico, diabetes, hipertensão ou outra condição de saúde.
Pode ajudar registar as datas das hemorragias, a duração do ciclo, sintomas e eventuais testes de ovulação. Mas não transformes o registo numa obrigação: nos primeiros ciclos, as previsões podem ser pouco fiáveis.
Quando deves procurar ajuda?
Marca uma consulta se:
- não tiveres menstruação durante três meses;
- tiveres hemorragias muito abundantes ou prolongadas;
- sentires dor pélvica intensa, nova ou incapacitante;
- tiveres sangramento entre períodos ou depois das relações sexuais;
- estiveres a tentar engravidar sem sucesso durante 12 meses — ou durante 6 meses se tiveres 35 anos ou mais;
- os sintomas que a pílula controlava regressarem com intensidade.
Deixar a pílula não tem de ser uma decisão dramática nem uma prova de resistência. É uma mudança de método e uma oportunidade para perceberes como funciona o teu ciclo sem contraceção hormonal. Com informação e acompanhamento adequados, podes escolher o que faz sentido para o teu corpo, a tua saúde e os teus planos.
Referências bibliográficas
- NHS. Periods and fertility in the menstrual cycle.
- Faculty of Sexual and Reproductive Healthcare. FSRH Guideline: Combined Hormonal Contraception.
- American College of Obstetricians and Gynecologists. Treating Infertility.
Mariana Torres Médica, OM51133