“Ora está bem, ora está mal, só pode ser bipolar!” – Será mesmo assim?

A doença bipolar é uma perturbação do humor com forte componente biológico, marcada por episódios maníacos ou hipomaníacos, que exige diagnóstico e tratamento dirigidos.
A doença bipolar é uma perturbação do humor com forte componente biológico, marcada por episódios maníacos ou hipomaníacos, que exige diagnóstico e tratamento dirigidos.

A doença bipolar pode ser confundida com uma alteração da personalidade mas, na realidade, é uma doença psiquiátrica, com forte componente biológico e que carece de tratamento e intervenção dirigidas.

A expressão “bipolar” é muitas vezes usada, de forma coloquial, para descrever formas de ser ou reagir, nomeadamente quem, frequentemente, muda de estado de ânimo. Contudo, a Doença Bipolar é uma patologia psiquiátrica, que faz parte das perturbações de humor, é de evolução crónica, cursa por episódios ou fases e tem impacto no individuo. Habitualmente, a doença é caracterizada por fases de alteração de humor, relativamente estáveis, ou seja, essa alteração ocorre por um período de vários dias ou semanas, dependendo da gravidade e intensidade dos sintomas.

Não é por isso “estar sempre a mudar de humor”. Os episódios ocorrem muitas vezes de forma independente de acontecimentos externos, instalando-se no doente, embora os fatores psicossociais e o stress possam também contribuir para desencadear uma fase aguda.

Na mulher por exemplo, a doença pode iniciar-se no pós-parto, ou haver uma recorrência aguda nesse período se já tiver o diagnóstico, sendo mais frequente se houver história familiar de perturbações de humor.

A idade de início é habitualmente no princípio da idade adulta, em média pelos 25-30 anos de idade, podendo contudo surgir mais cedo e também numa idade mais avançada.

Qual é o principal sintoma?

O sintoma principal e que tem de estar presente é a alteração de humor, sendo que devem estar presentes outros sintomas acompanhantes para o diagnóstico. Para se considerar a Doença Bipolar, deve ocorrer pelo menos um episódio maníaco ou hipomaníaco (este último é um episódio menos intenso ou de menor duração), independentemente de haver episódios depressivos também.

Mas afinal o que é um episódio maníaco?

Num episódio maníaco, todas as funções psíquicas aumentam e tudo é exagerado relativamente ao contexto.

A pessoa começa a manifestar uma elevação do humor com euforia, alegria exagerada e expansividade (sem motivo aparente) e/ou uma irritabilidade persistente e exagerada.

No contexto desta elevação do humor surgem outros sintomas que compõem o quadro clínico, nomeadamente:

  • Uma aceleração mental e comportamental, em que a pessoa apresenta um aumento da sua atividade, fazendo muitas coisas ao mesmo tempo e sentindo-se capaz de tudo (mas, muitas vezes, de forma desorganizada e sem real produtividade). O próprio pensamento fica acelerado com muitas ideias e pensamentos que se atropelam, o que muitas vezes é notório no discurso, que também aumenta de débito e é mais acelerado, não se conseguindo interromper, o chamado discurso verborreico, saltando de umas ideias para outras, muitas vezes sem concluir a ideia anterior.
  • Surge um aumento da energia vital, com redução da necessidade de dormir (a pessoa pode dormir 2 ou 3h por noite durante vários dias e manter um nível de energia elevado).
  • A pessoa pode mostrar-se mais expansiva, com maior desinibição social e até mudar a sua forma de estar, de se apresentar e vestir (usando, por exemplo, cores vibrantes e muitos adereços, sendo que o sinal de alerta é ser diferente do seu estilo habitual). Pode haver ainda gastos excessivos de dinheiro (mesmo que não haja possibilidade para o fazer ou não haja necessidade de adquirir aqueles artigos) e comportamentos de risco.
  • Em casos mais graves podem surgir sintomas psicóticos, como delírios (ideias fora da realidade, mantidas com convicção absoluta) e alucinações (ouvir vozes, que não são reais), cujo conteúdo geralmente é de grandiosidade (exemplo: “acreditar piamente que tem uma missão, em que vai salvar o mundo e mudar toda a sua conduta em função disso”).
  • Muitas vezes, durante o episódio maníaco, há perda de crítica ou de insight, ou seja, a pessoa não reconhece os sintomas como sinal de doença ou de uma fase aguda e a necessidade de tratamento.

Por vezes, após um episódio maníaco segue-se uma fase depressiva.

Quando ponderar o diagnóstico de doença bipolar e como é o tratamento?

Nem sempre os episódios são tão claros, intensos e persistentes e existe alguma heterogeneidade na apresentação clínica e gravidade dos sintomas. Hoje, fala-se muito em espectro bipolar, que contempla várias formas e intensidades diferentes de doença e de alteração de humor, onde se incluem não apenas as formas clássicas da doença, bipolar tipo I e tipo II, mas também outros tipos.

Existem por exemplo formas de doença, em que as alterações de humor ocorrem de forma mais frequente e mais intensa, sendo mais difíceis de estabilizar, os chamados ciclos rápidos, e outras de forma mais leve mas mais persistente, a ciclotimia, entre outros.

Por isso, na presença de episódios depressivos, que não melhoram muito com os antidepressivos, que se apresentam com muitos sintomas físicos, inquietação, irritabilidade e ansiedade frequentes ou, pelo contrário, com lentificação, apatia e hipersonolência diurna e, em que são identificados alguns picos (ainda que de pouca duração), de um aumento de energia, humor e atividade, sem explicação aparente, vale a pena ponderar a possibilidade da doença bipolar, pois o tratamento importa e é diferente da depressão.

A medicação é muito útil a controlar os episódios e a manter a estabilidade clinica. Os medicamentos utilizados são chamados estabilizadores de humor, pois ajudam a que não ocorram episódios maníacos nem depressivos. O acompanhamento psicoterapêutico é também muito útil na prevenção de recorrências e manutenção da funcionalidade e a psicoeducação, que permite um maior entendimento sobre a doença (pelo próprio e pela família próxima) e ajuda na identificação de sinais de alarme de forma precoce, é muto efetiva a prevenir episódios agudos. A regularização do sono é um aspeto particularmente importante para a estabilidade da doença.

Apesar da cronicidade da doença, há tratamento e é possível manter uma vida funcional e produtiva.

Deixo-te a sugestão de um filme, que aborda a forma mais clássica da doença: Mr. Jones (1993, de Mike Figgis, com Richard Gere e Lena Olin).

Referências Bibliográficas

  • Cohen, P. Harrison, P. Burns, T. (2012). Shorter Oxford Textbook of Psychiatry. 6ED. Oxford.
  • Boland, R. Verduin, M. Ruiz, P. (2014). Kaplan and Sadock’s Synopsis of Psychiatry. 11ED. Wolters Kluwer.
  • Saraiva, C. Cerejeira, J. (2014). Psiquiatria Fundamental. Lidel.
Renata Trindade
Renata Trindade

Médica psiquiatra, formada na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, concluiu a especialidade de Psiquiatria em 2019 no Hospital Garcia de Orta, onde exerce atualmente funções de assistente hospitalar em Psiquiatria. Com especial gosto e interesse pela área da saúde mental perinatal, realizou formação especializada no Instituto Europeu de Salud Mental Perinatal e na Pospartum Support International.

Publicado em 17 de março de 2026

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