Risco Vascular – o que é e porque falamos dele na mulher em idade fértil?

Risco vascular na mulher em idade fértil: o que é, fatores de risco e porque complicações da gravidez (como pré-eclâmpsia e diabetes gestacional) importam depois do parto.

Risco Vascular – o que é e porque falamos dele na mulher em idade fértil?

Já tiveste hipertensão gestacional? Ou pré-eclâmpsia? Ou diabetes gestacional? Então este texto é para ti.

O risco vascular (ou risco cardiovascular ou ainda risco cérebro-cardiovascular) consiste na probabilidade de vir a ter no futuro um evento adverso como um acidente vascular cerebral (AVC), um enfarte do miocárdio (vulgo ataque cardíaco) ou doença arterial periférica (a mais conhecida “má circulação”).

Este risco é individual e potencialmente modificável, dependendo de uma série de fatores de risco, os chamados fatores de risco vascular.

Se é verdade que há fatores de risco que não podemos alterar, tais como a idade, o sexo (masculino) e a predisposição familiar, a boa notícia é que a maior parte dos fatores de risco são modificáveis e estes são os que têm mais impacto no risco cardiovascular (estima-se que até 80%). Isto significa que podemos intervir através da alteração de hábitos de vida, associada ou não a medicação, de forma a reduzir o risco vascular.

Entre os fatores de risco modificáveis encontram-se o consumo de tabaco e álcool, o sedentarismo, hábitos alimentares desadequados (consumo excessivo de sal, açúcar e gorduras saturadas, e baixo consumo de vegetais e frutas), a hipertensão arterial, o excesso de peso e obesidade, a diabetes e a dislipidemia (colesterol alto).

Além destes fatores de risco tradicionais, nos últimos anos têm sido reconhecidos outros fatores que parecem contribuir para um aumento do risco, tais como o stress, má qualidade do sono, exposição a poluição do ar e sonora, fragilidade socioeconómica, inflamação crónica, doença mental grave não controlada, entre outros. Hoje em dia sabemos que algumas complicações específicas da gravidez também constituem fatores de risco vascular; ou, numa linguagem mais rigorosa, fatores modificáveis do risco vascular, porque não têm, por si só, o mesmo peso que os fatores de risco tradicionais. São uma chamada de atenção à saúde global da mulher que vai além da saúde reprodutiva.

Entre os problemas específicos da gravidez encontram-se as complicações hipertensivas (hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia, eclâmpsia e síndrome HELLP – Hemolysis, Elevated liver enzymes and Low Platelets), diabetes gestacional, parto prematuro e abortos de repetição.

Embora a relação ainda não esteja totalmente esclarecida, pensa-se que algumas destas complicações possam resultar de um problema com os vasos e a circulação sanguínea e traduzir uma predisposição para vir a desenvolver doenças cardiovasculares no futuro. Isto não tem um carácter vinculativo nem significa uma “sentença”. Serve antes como um convite para olhar para o estilo de vida e analisar o que pode ser melhorado com vista a potenciar a saúde.

Nestes casos, as estratégias de prevenção cardiovascular passam por uma alimentação variada e equilibrada, prática regular de exercício físico (de preferência um que gostes!), manter um peso saudável e uma boa higiene do sono, cuidar da saúde mental, evitar consumo de tabaco e bebidas alcoólicas, a amamentação e um acompanhamento médico adequado. Os hábitos de vida saudáveis podem e devem ser estendidos à família.

No caso das complicações hipertensivas na gravidez, é razoável uma avaliação médica no pós-parto e anualmente, com monitorização dos fatores de risco vascular, podendo a periodicidade ser ajustada caso a caso.

Relativamente à diabetes gestacional (com teste de reclassificação normal no pós-parto), recomenda-se fazer análises pelo menos a cada 3 anos, ou em intervalos mais curtos caso existam outros fatores de risco adicionais. As análises podem incluir glicemia em jejum, HbA1c (um parâmetro que dá uma média da glicemia nos últimos 2-3 meses) ou prova de tolerância à glicose oral (PTGO).

Uma vez que estas complicações podem recorrer numa futura gravidez, a avaliação pré-concepcional é particularmente importante nas mulheres que as tiveram numa gravidez anterior, pois o planeamento e controlo antecipado são os principais determinantes de sucesso numa nova gravidez.

Referências bibliográficas:

  1. Araújo F. Manual de Risco Vascular. Lidel, 2025.

  2. Nelson-Piercy C. Handbook of Obstetric Medicine. 6th edition, 2020.

  3. Norwitz ER. Preeclampsia: Intrapartum and postpartum management and long-term prognosis. UpToDate, Jan 2026.

  4. Consenso Diabetes e Gravidez: Atualização 2025. Rev Port Diabetes. 2025;20(3):85-129.

  5. 2024 ESC Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension. Eur Heart J. 2024;45(38):3912–4018.

Carolina Fabião Sequeira
Carolina Fabião Sequeira

Médica pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, tendo concluído em 2024 a especialidade de Medicina Interna no Hospital de Cascais, e realizado estágios de Medicina Obstétrica na Maternidade Dr. Alfredo da Costa e de Doenças Autoimunes no Hospital Curry Cabral. Áreas de interesse: Patologia Médica na Gravidez e Puerpério; Hipertensão, Doenças Cardiovasculares e Risco Vascular; Tromboembolismo; Trombofilias; Anemia; Infertilidade de causa não ginecológica; Dislipidemia; Diabetes; Doenças da Tiróide e Gravidez; Urgência e Emergência Médica.

Publicado em 3 de fevereiro de 2026

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